Apagão de crédito do PRODES e projeto aprovado na Câmara expõem os limites da punição por satélite no campo

Para especialista em direito ambiental, fiscalização remota não pode substituir o devido processo legal

O avanço do monitoramento remoto transformou a fiscalização ambiental no Brasil. Mas uma distorção silenciosa vem crescendo no sistema: produtores rurais estão sendo bloqueados no crédito e embargados antes mesmo de ter chance de se defender. O gatilho é uma imagem de satélite.

A aprovação do Projeto de Lei 2.564/2025 pela Câmara dos Deputados e o recuo do Conselho Monetário Nacional sobre as exigências do PRODES no crédito rural acenderam um debate que o campo já vivia na prática. Para o advogado especialista em direito ambiental José de Moraes Neto, os dois movimentos não são coincidência. “Trata-se de uma reação legítima contra o que podemos chamar de ‘a revolta dos fiscais de tela'”, afirma. Para ele, o problema central não é a tecnologia em si, mas o uso que se faz dela. “O que está em jogo é algo anterior e fundamental: o respeito ao devido processo legal, à ampla defesa e ao contraditório, pilares que sustentam o nosso Estado Democrático de Direito.”

O PRODES foi desenvolvido para o mapeamento da Amazônia, onde o corte raso é facilmente identificado. No Cerrado, a vegetação nativa varia drasticamente entre o período chuvoso e a seca, e o sistema não distingue essa variação de um desmatamento ilegal. Mais grave: ele é incapaz de cruzar o alerta com a documentação do produtor. “O satélite capta a supressão vegetal, mas é incapaz de ler o arquivo digital da Autorização de Supressão de Vegetação que o produtor obteve legalmente junto ao órgão ambiental estadual”, explica Moraes Neto. A isso se somam falsos positivos, roçadas legítimas e erros de geoprocessamento que colocam alertas em propriedades erradas.

Culpado antes de ser notificado

O efeito prático é uma inversão do ônus da prova. “Quando o sistema bancário utiliza esse alerta bruto para travar o crédito ou embargar uma propriedade, o produtor regular descobre-se culpado até que prove o contrário. Ele é asfixiado financeiramente e impedido de produzir antes mesmo de ser formalmente notificado”, afirma o advogado. Para Moraes Neto, a saída não é abandonar o monitoramento remoto, mas redefinir seu papel. “A fiscalização remota deve funcionar como um vetor de inteligência e triagem, indicando onde o Estado deve agir, mas jamais substituindo a vistoria presencial e a análise humana individualizada. Penalidades aplicadas ao arrepio da lei resultam em uma enxurrada de ações judiciais que anularão as sanções por vício de forma, gerando impunidade para os infratores e prejuízos injustos para quem produz dentro da legalidade”, ressalta o advogado.

@jose_de_moraes_neto

Populares

NR-1 entra em vigor sob caos regulatório e acende alerta de insegurança jurídica no Brasil

Em episódio exibido no dia 27 de maio, Stephanie Dalmazo, Vinny D’Lakart e o psicólogo Rodrigo Tognareli criticam subjetividade da norma e cobram respostas urgentes do Ministério do Trabalho créditos: divulgação A entrada em vigor da nova atualização da NR-1, no último dia 26 de maio, colocou empresas brasileiras em estado de alerta e abriu um intenso debate sobre insegurança jurídica, subjetividade técnica e saúde mental no ambiente corporativo. O tema ganhou repercussão nacional após o episódio do podcast “Café com Benefícios”, exibido ontem (27), reunir Stephanie Dalmazo,comunicadora digital e host do podcast, Vinny D’Lakart, radialista e co-host, e o […]

Modelo da M Pericias terceiriza burocracia processual e atrai médicos para perícia judicial

Fundada pelo advogado Alcides Martinhago Junior, autor de "Blindagem Médica", a empresa cadastrou 1.327 médicos no primeiro ano de operação e atende auxiliares da Justiça em todos os estados brasileiros

Do crescimento à maturidade: como o avanço do fitness no Brasil impulsiona uma nova era na gestão

O mercado fitness brasileiro vive um momento de transformação que vai além da expansão. Após uma década de crescimento acelerado, com o número de estabelecimentos triplicando e a projeção de mais de 62 mil unidades em 2025, segundo o Panorama Setorial Fitness Brasil, o setor entra agora em uma fase de amadurecimento que exige uma nova abordagem de gestão.

Filipe Toca lança aguardado álbum “Muita Sede”

O cantor e compositor potiguar Filipe Toca apresenta “Muita Sede”, seu aguardado...

Crescimento acelerado. A estrutura financeira e a governança acompanharam?

Empresas em expansão acelerada frequentemente chegam a um ponto crítico: a operação cresce, mas a inteligência financeira, os processos e a governança não acompanham no mesmo ritmo. Quando essa assimetria não é corrigida, ela vira risco — nas decisões, nas margens, e no momento em que mais importa.