Dra. Márcia Moreira alerta: O boom da estética no Brasil esconde um risco crescente que o sistema terá que absorver

# Dra. Márcia Moreira alerta: O boom da estética no Brasil esconde um risco crescente que o sistema terá que absorver

O Brasil nunca realizou tantos procedimentos estéticos e, ao mesmo tempo, nunca discutiu tão pouco o que acontece quando eles não evoluem como esperado. Para a cirurgiã plástica Dra. Márcia Moreira, o crescimento acelerado do setor traz um ponto de atenção que ainda não está no centro do debate. Existe uma expansão clara do mercado, mas o que ainda não foi estruturado na mesma velocidade é a responsabilidade sobre o risco.

A expansão da estética no Brasil não foi apenas quantitativa, foi estrutural. Hoje, o setor envolve profissionais vinculados a diferentes conselhos, ampliando o acesso e a oferta, mas esse crescimento também trouxe maior complexidade operacional e menor coordenação institucional. Em mercados mais maduros, a regulação evoluiu com base na complexidade dos procedimentos e não apenas na formação do profissional, enquanto no Brasil essa discussão ainda é incipiente.

Em setores complexos, crescer sem coordenação gera distorções. A formação heterogênea, as estruturas assistenciais desiguais e a capacidade variável de resposta a complicações fazem parte da realidade atual. O problema não está na quantidade de profissionais, mas na ausência de critérios claros que definam limites operacionais com base no risco de cada procedimento.

O procedimento estético, muitas vezes, é tratado como o fim da jornada, quando do ponto de vista médico é justamente o contrário. A medicina começa quando algo não evolui como esperado, e as complicações não seguem lógica de mercado, seguem lógica biológica. Não são raros os casos em que pacientes passam por múltiplas tentativas de correção antes de chegarem a centros com maior capacidade resolutiva, muitas vezes já em quadros mais complexos.

Embora os procedimentos estéticos sejam, em sua maioria, privados, suas complicações podem ser absorvidas por hospitais e operadoras de saúde, criando uma distorção econômica relevante. Na prática, o benefício é individual, mas o risco pode ser compartilhado pelo sistema. Trata-se de uma externalidade clara que, ao crescer em escala, deixa de ser um problema individual e passa a ser um problema estrutural.

A judicialização da saúde suplementar já ultrapassa bilhões de reais e segue em crescimento, trazendo imprevisibilidade de custos, pressão sobre operadoras e aumento da insegurança jurídica. Esse movimento é um sintoma, reflexo de um sistema que cresceu mais rápido do que sua capacidade de organização.

O desafio não é frear o crescimento da estética no Brasil, mas estruturá-lo por meio de critérios regulatórios baseados em complexidade, exigência de infraestrutura proporcional ao risco, maior integração entre conselhos profissionais e protocolos claros para manejo de complicações.

A estética no Brasil não vai recuar, mas precisa amadurecer, porque no modelo atual o risco não desaparece, apenas muda de lugar. Quando isso acontece em larga escala, deixa de ser uma questão individual e passa a ser um problema econômico.

Dra. Márcia Moreira

Cirurgiã plástica, com atuação em assistência, gestão e perícia médica na área da saúde suplementar.

Instagram: @dramarciamoreira (https://www.instagram.com/dra.marciamoreira/)

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