A endometriose não significa infertilidade: entenda como a doença afeta a fertilidade e por que o acompanhamento individualizado é decisivo para quem sonha em engravidar.
A endometriose é uma das doenças ginecológicas mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva e, embora seja frequentemente associada à dor intensa e ao impacto na qualidade de vida, outro aspecto merece atenção especial: a fertilidade. Caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, a doença pode acometer ovários, trompas, intestino, bexiga e outras estruturas da pelve. Além das cólicas incapacitantes, dor durante as relações sexuais e desconfortos intestinais ou urinários, a endometriose pode dificultar a gestação em parte das pacientes.
Segundo a ginecologista Dra. Fabyanne Mazutti, o diagnóstico de endometriose não deve ser encarado como uma sentença de infertilidade, mas sim como um sinal de alerta para que a mulher receba acompanhamento adequado e individualizado. “Nem toda mulher com endometriose terá dificuldade para engravidar. Muitas conseguem uma gestação espontânea e saudável. No entanto, é importante entender como a doença pode interferir na fertilidade para que o planejamento reprodutivo seja feito da melhor forma possível”, explica a especialista.
A relação entre endometriose e infertilidade envolve diversos fatores. Um dos principais é o processo inflamatório provocado pela doença. A inflamação crônica na região pélvica pode comprometer a qualidade dos óvulos, dificultar a movimentação dos espermatozoides e interferir nos mecanismos necessários para que a fecundação ocorra naturalmente. Além disso, a presença de aderências e alterações anatômicas pode prejudicar o funcionamento das trompas, dificultando a captura e o transporte do óvulo até o local da fertilização.
Outro ponto importante são os endometriomas, cistos associados à endometriose que se desenvolvem nos ovários. Em alguns casos, eles podem estar relacionados à redução da reserva ovariana, especialmente quando a doença é avançada ou quando a paciente já foi submetida a procedimentos cirúrgicos repetidos. Há ainda situações em que a doença pode influenciar a receptividade do endométrio, tornando mais difícil a implantação do embrião.
Apesar disso, a infertilidade não é uma realidade para todas as mulheres diagnosticadas com a doença. A intensidade dos sintomas nem sempre corresponde ao impacto da endometriose na fertilidade. Existem pacientes com lesões discretas que apresentam dificuldades para engravidar, enquanto mulheres com quadros mais extensos conseguem uma gestação espontânea. Por isso, a avaliação individualizada é considerada fundamental.
Antes de iniciar as tentativas para engravidar, mulheres com diagnóstico ou suspeita de endometriose devem considerar uma avaliação reprodutiva completa. Fatores como idade, reserva ovariana, condição das trompas, anatomia pélvica e qualidade seminal do parceiro precisam ser analisados para que a estratégia mais adequada seja definida. Afinal, a fertilidade é uma questão que envolve o casal e não apenas a mulher.
A cirurgia, que durante muitos anos foi considerada uma das principais abordagens para o tratamento da endometriose, atualmente é indicada de forma mais criteriosa. Embora possa corrigir alterações anatômicas importantes e beneficiar algumas pacientes, o procedimento também pode impactar a reserva ovariana, especialmente quando envolve os ovários. Por isso, a decisão deve ser individualizada e considerar os objetivos reprodutivos da paciente, além dos riscos e benefícios envolvidos.
A busca por orientação especializada também não precisa ser adiada. Mulheres acima dos 35 anos, com endometriose moderada ou profunda, comprometimento ovariano ou tubário, histórico de cirurgias ovarianas, dor pélvica importante ou infertilidade prévia podem se beneficiar de uma investigação precoce. Quanto mais cedo a situação for avaliada, maiores são as possibilidades de planejamento e tratamento.
Outra alternativa que vem ganhando espaço é a preservação da fertilidade por meio do congelamento de óvulos. A estratégia pode ser considerada por mulheres que desejam adiar a maternidade ou que apresentam risco de redução progressiva da reserva ovariana. O objetivo é preservar o potencial reprodutivo em uma fase em que a qualidade dos óvulos ainda é mais favorável.
Para a Dra. Fabyanne Mazutti, a endometriose deve ser encarada de forma ampla, considerando não apenas o controle da dor e da progressão da doença, mas também os planos reprodutivos da paciente. Com acompanhamento adequado, informação de qualidade e planejamento individualizado, é possível ampliar as chances de uma gestação saudável e permitir que mais mulheres realizem o sonho da maternidade mesmo convivendo com a doença.
