Outros Bárbaros chegam ao terceiro disco explorando novas sonoridades e um olhar crítico sobre o presente

Os Outros Bárbaros chegam ao terceiro álbum com mudanças importantes na formação e também na direção sonora. Em “Pelas Ruas das Américas”, o grupo de Florianópolis assume o formato de trio, com Maurício Peixoto (voz e guitarra), Eduardo Lehr (baixo) e Marco Mibach (bateria e percussão), e aprofunda a aproximação com referências da música brasileira que já vinham surgindo no trabalho anterior, “Interlúdio na Beira do Caos” (2022). O resultado é um disco que amplia o leque estético da banda, dialogando com a tradição da canção brasileira enquanto mantém a energia do rock e um discurso crítico como fio condutor.

Com dez faixas, entre elas os singles “Fortaleza Hostil” e “Nós Dois”, já divulgados nas plataformas, o álbum apresenta composições majoritariamente assinadas por Peixoto, além de parcerias e participações especiais que enriquecem o repertório. A única releitura do trabalho é “Alucinação”, clássico de Belchior, incluído como homenagem ao legado do artista. Gravado no Bárbaro Estúdio, em Florianópolis, e finalizado pelo produtor Alexei Leão em Portugal, o disco também reúne colaborações como a do tecladista Donatinho e arranjos de metais de Hemerson Calandrini. O processo de criação e gravação ainda foi registrado em um mini documentário dirigido por Antonio Rossa, que acompanha os bastidores dessa nova fase da banda. 

Como a formação em trio transformou o som e o processo criativo do álbum?

A mudança de formação ocorreu no meio do processo do álbum. Nosso tecladista, Diego Stecanela, estava prestes a ser pai e não conseguia conciliar tudo. Todos da banda tem vidas super corridas, no sentido de estar em vários projetos e tal. Essa dificuldade de casar agendas fez com que o trabalho de construção dessas músicas fosse muito mais um processo individual de estúdio do que propriamente a banda tocando junto. Basicamente, nos reunimos, definimos a estrutura da canção que eu havia levado pro ensaio e depois já começamos a trabalhar individualmente nas sessões de gravação. Como eu produzo e gravo tudo aqui mesmo no meu estúdio, conseguimos ter mais flexibilidade assim. A falta de um tecladista propriamente dito fez com que as teclas acabassem ocupando um outro papel, mais de cama, de ambientação, diferente do papel protagonista que tinha antes. E isso tudo somado resultou nesse álbum, que talvez seja o nosso trabalho com menos cara de “banda de rock” até agora. 

De que forma vocês equilibram a vibe MPB anos 70 com uma sonoridade atual e politizada?

Acho que essas coisas caminham juntas. Existe uma tradição de música brasileira de protesto, muito forte durante a ditadura militar. Nesse álbum, as músicas tinham na essência delas esse DNA Brasil 70. Não foi algo premeditado, elas nasceram assim. Ao mesmo tempo, nossa banda surgiu na ascensão do bolsonarismo e aquele ambiente político nos levou a falar destes temas, que viraram uma nossa. Todos os nossos trabalhos têm isso. Então, foi um casamento que, na nossa cabeça, tinha tudo pra funcionar, essa vibe 70 mas com discurso atual. Sonoramente falando, foi uma busca nossa, junto com o Alexei Leão, que mixou e masterizou o trabalho, esse lance de usar texturas, ambientações mais vintage e ao mesmo tempo não perder punch, de ter som grande, de soar atual mas com a influência retrô bem destacada.

O que motivou a escolha de “Alucinação”, de Belchior, e o que essa canção simboliza para a banda hoje

Belchior é uma das várias unanimidades que temos na banda. De todo mundo achar bom pra caramba. Em 2024/25, produzimos e levamos pra estrada um show que tocamos na íntegra o disco Alucinação, misturado com nossas músicas. Durante o processo do álbum, ficamos com vontade de incluir alguma dessas músicas. Como o Alucinação completa 50 anos em 2026, fez ainda mais sentido. E a escolha específica da música se deu porque não queríamos algo que já fosse muito “batido”, tipo Como Nossos Pais, que já teve várias versões, foi consagrada no voz da Elis e tal. Mas também não queríamos algo que fosse totalmente lado B. A alucinação caiu como uma luva. Tem uma letra que é muito forte, muito atual, que casa com o que a gente gostaria de dizer. Esses canções estão fazendo 50 anos e parecem que foram escritas semana passada. O que o Bad Bunny fez no Super Bowl, o Belchior já tava dizendo em 76.

Como as participações especiais e o minidocumentário impactaram o resultado final do disco?

Adoramos esse lance de chamar gente pra participar, pra tocar junto no show, de fazer da música algo agregador. Dessa vez, ficamos pensando em chamar alguém que não fosse da nossa cena. Queríamos uma participação em Enfim Renascerá, pra dar uma cor diferente nela. Nosso baterista, o Marco Mibach, trabalhou com bastante gente no Rio de Janeiro, ele morou um bom tempo lá. Aí, ele sugeriu o Donatinho, que já conhecia há algum tempo. Como o Donatinho tem esse lance da música brasileira e também é um apaixonado por sintetizadores, achamos que ia super funcionar. Falamos com ele, ele topou e mandou bem demais. Um bom gosto enorme, os arranjos dele colocaram a música onde ela precisava, foi ótimo! Já o doc, era uma coisa que a gente queria fazer a bastante tempo, porque não tínhamos nada nesse sentido ainda. O diretor, Antonio Rossa, também é compositor, grava comigo aqui no estúdio. Conversei com ele e nos acertamos. Por questões orçamentárias, o que rolou fazer foi um minidoc mesmo. A vontade, claro, era fazer algo um pouco mais extenso, mas foi o que deu pra fazer. Ficou super bonito, acho que cumpre demais o papel de contar um pouquinho da nossa história, ficamos muito felizes com o resultado. No final, tudo isso enriquece a obra, né? Dá mais contexto, mais corpo, acho que ajuda a dar cada vez mais veracidade a tudo o que fazemos. 

Por que essas músicas só fazem sentido para a banda neste momento?

Sonoramente, acredito que essas canções podem ser atemporais, já que fazemos um tipo de som baseado na canção, não em modismos estéticos. Já o discurso é bastante atual, existem coisas ali que falam diretamente de acontecimentos de agora. De qualquer forma, pode ser que esse discurso continue fazendo sentido daqui a um tempo (esperamos, sinceramente, que não… hehehe). Algumas outras coisas são mais universais, como as letras de Nós Dois e Cheguei, Cadê Você?. De um modo geral, os temas retratam o jeito que a gente vê o mundo hoje, como um recorte da realidade. A questão política, a questão das guerras. Inclusive o mundo anda tão louco que um álbum lançado faz ym mês já tem letra que está desatualizada, vide os últimos acontecimentos no Irã. O primeiro single do álbum, Fortaleza Hostil foi escolhido justamente por essa urgência de discurso, era um assunto muito daquele momento, fazia total sentido lançar ela ainda no final de 2025.

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