De Juiz de Fora à Alemanha: Sensio Leva Tecnologia Industrial Brasileira à Maior Feira do Mundo

A escolha do Brasil como país-parceiro oficial da Hannover Messe 2026, maior feira de tecnologia industrial do mundo, realizada entre 20 e 24 de abril na Alemanha, marca um reposicionamento que o país não ocupava desde 1980. A delegação brasileira é a maior da história do evento, com cerca de 270 integrantes distribuídos por mais de seis pavilhões. Mais do que uma vitrine diplomática, o pavilhão nacional funciona como declaração de intenção: o Brasil se apresenta ao mundo não apenas como fornecedor de commodities, mas como produtor de tecnologia aplicada à indústria.

No centro desta narrativa, uma empresa do interior de Minas Gerais ajuda a ilustrar o que, na prática, significa reindustrializar o país. A Sensio, ERP industrial nascido em Juiz de Fora e focado em pequenas e médias indústrias, chega à Hannover com 250 clientes ativos nos setores moveleiro, alimentício, têxtil, de embalagens, ferramentas, cosméticos e produção de máquinas. Fundada por profissionais que cresceram no chão de fábrica e que acompanharam de perto os gargalos operacionais que a maioria dos sistemas ignoram, a empresa condensa o recorte que o governo federal elegeu como prioridade: levar produtividade às PMEs brasileiras por meio de tecnologia acessível.

A base esquecida da reindustrialização

A Nova Indústria Brasil, política industrial do governo federal com R$300 bilhões em financiamentos previstos até 2026, estabelece como meta digitalizar 90% das indústrias brasileiras. É uma ambição de escala: o parque industrial nacional é formado majoritariamente por PMEs, historicamente deixadas à margem dos grandes movimentos de automação porque o custo e a complexidade dos sistemas tradicionais as excluíam.

“O problema não é a indústria em si, e sim a tecnologia não chegar nela do jeito certo. As PMEs ficaram de fora porque os sistemas eram caros, complexos e distantes da realidade do chão de fábrica. A Sensio nasceu para resolver exatamente isso.” Afirma, Renata Parma, Cofundadora Sensio

O diagnóstico tem respaldo nos dados. O programa Brasil Mais Produtivo, braço de modernização da Nova Indústria Brasil, atendeu 67,5 mil PMEs em dois anos e registrou aumento médio de 28% na produtividade e ganho de 19% em eficiência energética entre as empresas participantes. O Crédito Indústria 4.0 já destinou R$12 bilhões para modernização. A reindustrialização prometida passa, obrigatoriamente, pela base produtiva,  e essa base precisa de software.  Na prática, isso significa fábricas que deixam de perder produção por falta de matéria-prima, passam a planejar compras com antecedência e ganham previsibilidade operacional.

Da pandemia à IA no chão de fábrica

A origem da Sensio se confunde com o diagnóstico que hoje orienta a política industrial brasileira. Durante a pandemia, os fundadores observaram de perto o estresse a que indústrias não digitalizadas foram submetidas: controle de estoque manual, ordens de produção em planilhas, decisões tomadas com dados defasados. O custo dessa opacidade se traduziu em rupturas de estoque, perda de prazos e, em alguns casos, inviabilização de operações inteiras.

A resposta foi um sistema que opera em três frentes: controle de produção com Kanban visual, gestão de estoque com baixa automática e cálculo de necessidades, e otimizações com inteligência aplicada para previsão de demanda, planejamento de reposição, redução de rupturas de estoque e controle fiscal.A IA, que no discurso público costuma aparecer como promessa distante, funciona no ERP da Sensio como camada prática de análise automatizada, transformando o dado bruto da fábrica em decisão acionável pelo gestor. A empresa foi eleita em 2023 uma das dez soluções empresariais mais promissoras da América Latina pela revista norte-americana CIO Review.

“O que estamos levando para Hannover não é uma promessa de futuro, é realidade. A inteligência artificial já está rodando dentro de pequenas e médias fábricas brasileiras, ajudando a prever demanda, organizar produção e evitar desperdício. Isso muda completamente o jogo, porque mostra que inovação industrial não é privilégio de multinacional, ela já está acontecendo na base da indústria.” Comenta, Renata Parma

Tecnologia made in Brazil para a indústria brasileira

A presença da Sensio em Hannover dialoga com uma tese que ganha corpo no debate econômico: reindustrializar o país exige fortalecer a cadeia nacional de tecnologia industrial. Um ERP desenvolvido localmente, que compreende as particularidades fiscais e operacionais das fábricas brasileiras, tende a gerar mais produtividade real do que um software estrangeiro adaptado.

O ambiente macroeconômico ajuda. O Brasil recebeu US$84 bilhões em Investimento Estrangeiro Direto entre janeiro e novembro de 2025, maior volume da última década, e foi o segundo maior receptor do mundo no período. O país também avançou de 70º para 40º lugar no ranking da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), sinal de que a indústria brasileira voltou ao radar internacional.

Renata Parma, destaca “O Brasil sempre exportou matéria-prima. Agora começa a exportar inteligência industrial. Estar em Hannover simboliza exatamente isso: não estamos mais só produzindo, estamos construindo a tecnologia que define como a indústria opera.”

Se a primeira fase da reindustrialização é medida pela capacidade de instalar máquinas, a segunda, possivelmente a mais decisiva, será medida pela inteligência que opera essas linhas. E essa camada de inteligência, pela primeira vez em décadas, começa a ser produzida dentro do país, para dentro do país, por empresas que cresceram vendo, de perto, onde a indústria brasileira sangra e onde ela pode acelerar.

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