Para o estrategista Manoel Filho, compreender o comportamento das pessoas exige observar não apenas suas preferências, mas também os fatores emocionais e sociais que influenciam a participação
A comunicação política está cada vez mais relacionada à compreensão do comportamento humano. Em ambientes marcados pela polarização e pelo excesso de informações, sentimentos como medo, identificação, confiança e rejeição podem influenciar a maneira como as pessoas interpretam mensagens, formam opiniões e participam de decisões coletivas.
Para o estrategista de comunicação política e governamental Manoel Filho, compreender essa dinâmica tornou-se fundamental para profissionais que atuam na construção de narrativas públicas e na comunicação institucional.
O especialista avalia que a preferência declarada por determinada ideia ou liderança não se traduz necessariamente em participação. Entre a formação de uma opinião e a decisão de agir, existem fatores emocionais, sociais e comportamentais que precisam ser considerados.
“A eleição não acontece apenas entre aqueles que dizem em quem vão votar. Ela acontece entre aqueles que efetivamente aparecem para votar. O eleitor improvável é justamente aquele cuja participação pode alterar a composição do eleitorado e surpreender as projeções”, afirma.
Participação e comportamento eleitoral
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre as eleições presidenciais de 2026 ilustram a importância de observar o comparecimento às urnas.
Segundo o tribunal, a abstenção passou de 21,08% no primeiro turno para 19,22% no segundo. A diferença representa aproximadamente 2,96 milhões de eleitores a mais participando da votação.
Embora os números não permitam identificar isoladamente quais fatores motivaram esse aumento, eles demonstram que o comparecimento é uma variável importante para compreender o comportamento eleitoral.
A intenção de voto, por exemplo, representa a preferência declarada do eleitor em determinado momento. Já a participação efetiva depende de outras condições, como interesse pelo processo eleitoral, percepção de relevância da disputa, circunstâncias pessoais e disposição para comparecer.
Na avaliação de Manoel Filho, o desafio da comunicação está justamente em compreender a distância entre aquilo que as pessoas afirmam e aquilo que efetivamente fazem.
O papel das emoções na comunicação
A influência das emoções sobre decisões individuais e coletivas não se restringe ao ambiente eleitoral. O fenômeno também pode ser observado em processos de comunicação institucional, formação de opinião pública e engajamento social.
Em contextos de divergência, mensagens podem despertar sentimentos de identificação, pertencimento, confiança ou preocupação. Entretanto, a existência dessas emoções não significa, necessariamente, que elas produzirão uma ação concreta.
“Rejeição não é voto automático. Medo também não. Entre o sentimento e a urna existe uma etapa decisiva chamada mobilização. É nela que uma campanha pode ganhar ou perder uma eleição”, destaca Manoel Filho.
Para o estrategista, o estudo do comportamento coletivo exige considerar tanto a intensidade das percepções quanto as condições que favorecem a participação.
Nesse cenário, compreender diferentes públicos significa ir além de indicadores quantitativos e observar como as pessoas recebem, interpretam e respondem às informações.
Comunicação digital e participação presencial
Outro aspecto relevante é a relação entre ambientes digitais e interações presenciais.
As redes sociais ampliaram a velocidade de circulação de informações, opiniões e narrativas. Ao mesmo tempo, encontros, eventos e iniciativas presenciais continuam desempenhando um papel importante na construção de vínculos e no fortalecimento de comunidades.
Para Manoel Filho, a conexão entre esses ambientes é um dos aspectos centrais da comunicação contemporânea.
“A rua alimenta a rede e a rede precisa devolver mobilização para a rua. Engajamento digital, sozinho, não elege ninguém. A comunicação só completa seu ciclo quando consegue transformar atenção em atitude e sentimento em participação.”
O especialista observa que métricas digitais, como alcance, visualizações e interações, oferecem informações relevantes sobre a circulação de conteúdos, mas não devem ser confundidas automaticamente com mudanças de comportamento.
A efetividade de uma estratégia de comunicação também depende de compreender como as mensagens são percebidas e se conseguem estabelecer conexões consistentes com o público.
Os desafios da comunicação em ambientes polarizados
A crescente fragmentação das audiências e a multiplicidade de canais de informação tornam a comunicação pública mais complexa.
Nesse contexto, o trabalho de profissionais da área envolve compreender diferentes percepções, identificar fatores que influenciam o comportamento coletivo e desenvolver mensagens capazes de dialogar com públicos diversos.
Para Manoel Filho, o principal aprendizado está na necessidade de considerar a dimensão humana da comunicação, sem reduzir decisões complexas a um único sentimento ou indicador.
“O erro é acreditar que uma eleição está resolvida quando se conhece a preferência do eleitor. Em uma disputa polarizada, a intensidade do sentimento pode ser tão importante quanto a intenção de voto. A preferência indica uma escolha. A mobilização é o que leva essa escolha até a urna.”
A reflexão destaca a importância de uma abordagem que combine análise de dados, compreensão do comportamento humano e responsabilidade na construção de mensagens públicas.
Sobre Manoel Filho
Manoel Filho é estrategista de comunicação política e governamental, pós-graduado pelo IDP e pela Academia Marcelo Vitorino. Atua em campanhas eleitorais, gestão de imagem pública e estratégias de comunicação institucional, com experiência em disputas eleitorais no Nordeste brasileiro. É associado ao CAMP Brasil e vencedor do Prêmio CAMP 2025.





